Espécie
Almejadores do Esquecimento
por AlkhamPublicado atualizado em
Vontades presas ao desejo de transformar toda a Existência em algo que jamais tivesse sido. Poucas entidades foram tão temidas e tão pouco compreendidas em Gion. Suas origens permanecem objeto de disputa entre tradições irreconciliáveis.
Almejadores do Esquecimento
“Em mim não havia medo ou raiva, apenas uma sensação. Terrível, subconsciente. Era que não havia razão alguma para algo assim existir. Sua existência era um sacrilégio à sanidade, uma afronta ao próprio Criador.”
Poucas entidades foram tão temidas e tão pouco compreendidas quanto os Almejadores do Esquecimento. Seus nomes atravessam tratados religiosos, relatos de guerra, registros fragmentários das Ordens ca'elestibas e mitologias contraditórias espalhadas por inúmeras culturas de Gion.
Para alguns povos, são espectros de dragões mortos. Para outros, demônios do vazio. Para os estudiosos da Ordem das Ciências e Tecnologias, anomalias auto-organizadas do Poder Primevo. Para os seguidores da Coroa de Gion, seres primordiais que sussurravam para além da criação antes mesmo da ruína da Primeira Existência.
A única certeza aceita entre todas as tradições é esta: onde os Almejadores se manifestam, a Existência se degrada.
Ainda assim, é inadequado chamá-los de deuses do caos, senhores da desordem ou simples forças destrutivas. O caos não é o desejo dos Almejadores. O caos é o estado da matéria depois da Hecatombe: fragmentada, instável, convulsionada. O Oblívio não é apenas um reino maligno, mas o domínio onde a realidade falha e onde as coisas existem de modo incompleto, contraditório ou interrompido. O antifluxo, por sua vez, não é mera energia negativa, mas uma desorganização corruptora do Poder Primevo, capaz de impor ao que toca uma lógica degenerada de inversão e desfazimento.
Os Almejadores são outra coisa.
São vontades.
Vontades presas ao desejo de transformar toda a Existência em algo que jamais tivesse sido.
Não almejam apenas destruir mundos, matar deuses ou mergulhar a matéria em ruína. Tais feitos são meios, sintomas ou etapas. Seu fim último é mais profundo: apagar o próprio fato de que algo algum dia existiu. Não a morte, mas o esquecimento. Não a derrota da criação, mas sua descontinuação absoluta.
Por isso sua origem permanece objeto de disputa.
Entre as tradições mais antigas dos Senhores das Auroras, preservou-se uma narrativa que durante milênios foi tratada como a explicação mais provável para seu surgimento.
Segundo essa versão, a Guerra da Primeira Morte chegou ao fim de modo implacável e angustiante. A Existência foi devastada num turbilhão de fúria. O tecido da realidade foi esticado até o limite; então se expandiu, convulsionou e rompeu-se.
Numa bolha de poder, fúria e dissolução, toda a matéria e toda a essência primeva foram empurradas em direção ao nada, desfigurando-se. A Primeira Existência, outrora una e grandiosa, deixou de ser mundo e tornou-se fragmento, ruína, cinza e dispersão.
A esse desfazimento resistiram os ca'elestibus. Como se movidos por uma única mente, uniram seus poderes e escaparam da dissolução completa. Mas o que encontraram depois não era salvação, e sim tormento: matéria em desarmonia, Poder Primevo disperso e um vazio absoluto onde antes havia ordem.
Alguns draynos também sobreviveram, protegidos por seus próprios poderes. Eram pouquíssimos, número ínfimo diante das massas resplandecentes da espécie rival. Foram seus mais poderosos, os dragões, draynos de natureza ígnea, que haviam incitado a ruína; e agora arrastavam consigo o que restava de sua gente.
Ainda rancorosos contra os ca'elestibus, mas temerosos diante do número superior, os sobreviventes passaram a vagar pelo vazio. Raras vezes encontravam semelhantes. E, mesmo quando isso acontecia, tais encontros quase nunca eram amistosos. Os draynos sobreviventes passaram a odiar tudo, inclusive os seus iguais.
Mais terrível, porém, teria sido o destino daqueles apanhados diretamente pela Hecatombe cósmica.
Arremessados para além da existência ordenada, perderam tudo, inclusive a matéria de seus próprios corpos. Tudo o que compunha suas formas físicas se desfez, restando apenas essências despedaçadas, espectrais, imbuídas de rancor.
Segundo a interpretação auroral, essas essências recusaram-se a abandonar a dimensão da matéria e seguir ao encontro do Criador. Odiavam Aidon, que temiam penetrar; odiavam Suvitan, que haviam perdido, mas ainda desejavam possuir. Ficaram presas em algum vácuo entre ambas: próximas demais da Existência para desaparecer, distantes demais dela para viver.
Do além, viam seus inimigos ca'elestibus erguerem-se das cinzas e, a partir das migalhas da velha realidade, construírem uma nova morada.
Tempo a tempo, o ódio dos espectros draynicos cresceu. Cada fragmento moldado pelos ca'elestibus, cada estrela forjada, cada mundo recomposto, cada nova ordem erguida sobre a ruína era recebido por eles como afronta. Onde os Senhores das Auroras viam redenção, os espectros viam roubo. Onde os Construtores viam reconstrução, eles viam usurpação.
Milênios em moradas de vazio tornaram-nos astutos maquinadores.
Então perceberam que todo o seu ódio podia ser convertido em poder, e esse poder em vingança.
Com os restos das forças que haviam se recusado a perder, os espectros enlaçaram uma forma nova de poder: o antifluxo. Nos de natureza ígnea, sobretudo entre os dragões, ele teria surgido com facilidade perversa, pois o próprio fogo drayníco já carregava, segundo essa tradição, a semente de sua inversão.
Com o antifluxo, passaram a controlar fragmentos do Oblívio e a moldar formas físicas: corpos tangíveis e abomináveis, criados a partir de imaginações torcidas, com o único intuito de servir à vingança. Dividiam suas mentes com essas formas e as enviavam à realidade ordenada, onde os ca'elestibus eram forçados a batalhar duramente para expulsá-las de suas obras.
Às vezes, os espectros moldavam formas tão primorosas que nelas podiam depositar a plenitude de suas mentes e espíritos. Assim adentravam a Existência com consciência real, usufruindo pessoalmente da vingança. Sempre que os ca'elestibus destruíam tais formas em árduas batalhas, os espectros retornavam aos seus verdadeiros pousos, no eterno vazio do Oblívio, onde voltavam a maquinar a desfeitura e inexistência.
Essa é a versão preservada entre muitos dos antigos Senhores das Auroras.
Mas ela nunca foi a única.
A Ordem das Ciências e Tecnologias, especialmente nos círculos influenciados por Endeulyn e Fenyl, sempre tratou essa narrativa com cautela. Para seus estudiosos, a ideia de espectros draynicos presos entre Aidon e Suvitan talvez fosse apenas uma explicação moral para um fenômeno mais profundo.
Segundo essa hipótese, os Almejadores não seriam almas degeneradas, mas padrões de Poder Primevo desorganizados durante a turbulência extrema da Hecatombe. Naquele período, a realidade teria sido reduzida a um estado de instabilidade brutal, no qual incontáveis possibilidades existenciais surgiam e colapsavam a cada instante. Em meio a essa sopa primordial de matéria quebrada e essência dispersa, certas estruturas teriam adquirido persistência.
Sem vida, sem consciência plena, apenas persistência.
Os Almejadores seriam o resultado mais terrível desse processo: estruturas quase vivas, quase racionais, incapazes de alcançar completude essencial, mas capazes de preservar, expandir e reproduzir sua própria desorganização.
Nessa visão, o antifluxo não seria ódio transformado em poder, mas uma inversão organizacional da própria essência primeva. Alguns estudiosos o comparam a uma corrupção análoga aos príons ou vírus: não uma força que simplesmente destrói de fora, mas um padrão defeituoso que reorganiza aquilo que toca segundo sua própria forma degenerada.
Assim, o antifluxo infecta o Poder Primevo não porque seja mais forte, mas porque é mais simples. O Poder Primevo constrói, ordena, interpreta e sustenta. O antifluxo desfaz, replica distorções e reduz estruturas complexas a estados cada vez mais degradados. Destruir exige menos ordem do que construir.
Dentro desse modelo, conceitos como vida, morte, alma ou espírito não se aplicam adequadamente aos Almejadores. Eles não teriam nascido. Tampouco poderiam morrer em sentido comum. Haveria apenas uma data de início: o momento em que certa desorganização tornou-se persistente o bastante para desejar continuar.
Endeulyn teria especulado que um Almejador, removido da pseudo-consciencia coletiva do Oblivio, poderia ser desfeito caso fosse envolvido por um fluxo de Poder Primevo superior, finamente entrelaçado e intrincado o bastante para desfazer sua entropia interna. Mas o custo seria absurdo. Seria necessário construir uma ordem mais vasta e mais complexa do que essa desordem que se pretende anular.
E sempre foi mais difícil erguer uma estrela do que apagá-la.
Já a doutrina associada a Argavalyn e à Coroa e Trono de Gion sustenta outra possibilidade: a de que os Almejadores sejam anteriores à Hecatombe.
Segundo essa interpretação, eles não surgiram da ruína da Primeira Existência. Já existiam antes, sussurrando para além das fronteiras da criação, opostos à realidade desde tempos imemoriais. A Hecatombe não os teria criado; apenas teria aberto a primeira grande brecha pela qual sua influência pôde manifestar-se de maneira mais intensa.
Nessa visão, os dragões não foram apenas culpados pela ruína. Foram arautos. Seres espiritualmente alinhados a humores, impulsos ou disposições que os aproximavam daquilo que sussurrava além da criação. Os Almejadores teriam encontrado neles canais adequados para insinuar palavras de ruptura, orgulho, fúria e desmedida.
Para os seguidores da Coroa, isso explicaria por que a queda da Primeira Existência pareceu tão rápida e tão absoluta. Não teria sido apenas uma guerra interna entre ca'elestibus e draynos, mas o primeiro êxito de uma vontade anterior à história.
As três teorias permanecem inconciliáveis.
Talvez os Almejadores sejam espectros de draynos consumidos pelo rancor.
Talvez sejam anomalias de Poder Primevo surgidas da desorganização cósmica.
Talvez sejam seres primordiais que apenas encontraram, nos dragões e na Hecatombe, seus primeiros arautos.
Ou cada uma dessas explicações toque apenas uma parte de uma verdade grande demais para ser suportada pela razão.
Os próprios Almejadores nada esclarecem. Quando falam, falam em contradição, promessa, ameaça e blasfêmia. Suas vozes são registradas em antigos relatos de batalha, em sonhos de profetas enlouquecidos e nas últimas palavras de conjuradores corrompidos pelo antifluxo.
Dizem:
“Somos aqueles cujo desejo foi maior que a capacidade de realizá-lo...”
“Aqueles cuja essência foi devorada. Cujo querer é o esquecimento. Os que deram as costas ao Criador.”
“O Oblívio não é o nosso lar.”
“A vingança, nosso desejo.”
“Toda criatura pode ser destruída, exceto aquela que jamais foi criada.”
“Somos os Almejadores do Esquecimento. Aqueles que eram, mas que já não são. Somos o terror do qual a religião de seus antepassados tanto falava. O medo que assola as almas nas horas de trevas mais profundas. O fim do erro, da morte, da vida; a desgraça e a salvação daqueles que nos buscam. A infame perpetuada antes que a Existência fosse. Somos quem detém a verdade esquecida.”
Essas palavras são usadas por diferentes tradições como prova de doutrinas opostas.
Os aurorais apontam para “aqueles que eram, mas já não são” e veem ali a confirmação de uma origem espectral. Os cientistas observam “o fim do erro, da morte, da vida” e interpretam a fala como evidência de uma entidade que ultrapassa categorias biológicas. Os seguidores da Coroa destacam “perpetuada antes que a Existência fosse” e afirmam que os Almejadores são mais antigos do que qualquer catástrofe conhecida.
Nenhuma leitura venceu as demais.
E talvez essa seja a maior vitória dos Almejadores: mesmo quando repelidos, mesmo quando expurgados em batalha, permanecem como dúvida. Uma ferida no conhecimento. Uma pergunta que a Existência jamais conseguiu responder sem olhar tempo demais para o abismo.
O caos pode ser ordenado, a ruína pode ser reconstruída e a morte pode ser lembrada. Mas aquilo que os Almejadores desejam não é caos, ruína ou morte. É o nada final: a transformação de tudo o que existe em algo que jamais tivesse sido.