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Saga cósmica de dragões, deuses e antideuses

Mitos da Primeira Existência · Capítulo 1 de 1

Primeira Morte

por AlkhamPublicado atualizado em

Acredita-se que Venafelyn foi um dos últimos ca'elestibus a surgir. No fim do Primeiro Ciclo da Primeira Existência, quando o governo ca'elestibu começava a se dividir com os recém-surgidos draynos.

Quem primeiro o viu foram os dragões, Sutangi e Drongodur, que o encontraram observando, imóvel, Vena, a Estrela do Primeiro Mundo. Por essa razão acreditaram que o ca'elestibu nascera há pouco e ainda estivesse em estado de admiração para com a Existência. Porém, segundo o próprio Venafelyn, contemplava Vena desde bem antes. Período esse que nem o próprio sabe calcular com exatidão.

Sutangi, conhecido como Primeiro Dragão, o guiou para junto de outros companheiros ca'elestibus e draynos que o receberam de braços abertos.

Ao chegar o dia em que Venafelyn escolheria a natureza elemental à qual seria iniciado, escolheu o fogo, pois queria poder tocar Vena sem ser incendiado. O fogo, devido à sua própria natureza, era pouco apreciado entre os ca'elestibus e Venafelyn, por muito tempo, não teve tutor e ficou aflito.

Sutangi, vendo o impasse de Venafelyn, decidiu dissuadi-lo da ideia.

Venafelyn, no entanto, se manteve decidido. Ignorou as advertências de Sutangi e de seus irmãos ca'elestibus e começou a treinar sozinho, se ferindo várias vezes durante o processo e obtendo poucos resultados. O fogo naquela época não era como o de hoje, e o jovem ca'elestibu não se contentaria com algo menor que as chamas de Vena.

Sutangi não resistiu ao ver a cena e decidiu ensiná-lo.

Diferente dos ca'elestibus, os draynos já nasciam com uma natureza própria, e Sutangi teve de se virar do jeito que pôde para ensinar a Venafelyn aquilo que sabia apenas por instinto. Não foi fácil para nenhum dos dois. Devido a isso, a Iniciação de Venafelyn se prolongou mais do que o normal entre seu povo.

Enquanto era treinado, Venafelyn acabou desenvolvendo uma profunda admiração e amizade por Sutangi. E passou a apreciar a companhia dos draynos. Chegou a aprender mais sobre eles do que qualquer outro ca'elestibu.

Quando enfim Venafelyn avançou em seu treinamento, a Existência começava a entrar em seu Terceiro Ciclo, que teve início com a era-da-duvida, quando draynos e ca'elestibus que haviam convivido em harmonia por milênios passaram a acalentar dúvidas um contra o outro.

Venafelyn e Sutangi foram dois dos mais árduos opositores da desunião entre os povos. Ainda assim, tudo prosseguiu segundo o que nos conta a tradição. Draynos e ca'elestibus foram se afastando cada vez mais. Por um tempo, Venafelyn se manteve longe de Sutangi, e seus ensinos foram interrompidos. O primeiro dragão vagava de clã em clã tentando acalmar os ânimos dos draynos.

Venafelyn voltou a treinar sozinho e a habitar na companhia de seu povo. Durante um tempo, chegou até a servir de porta-voz entre os dois povos.

Foi durante esse período que presenciou um evento que o marcou para sempre.

Uma seita particularmente agressiva que surgiu entre alguns dragões, guiados pelos insurgentes voransir e drongodur, passou a reivindicar posses ca'elestibas, dizendo também possuírem direito sobre elas pelo tempo em que foram aliados.

Venafelyn e argavalyn foram enviados como mensageiros por lynfrain, um dos líderes ca'elestibus da época, para dissuadirem Voransir dessa ideia. Argavalyn era um tipo taciturno, pensativo, que vivia olhando para os céus como se esperasse alguma coisa que nunca vinha, mas muito inteligente e eloquente. Ao lado dele, Venafelyn tentou dialogar com os líderes da seita.

Mas Voransir não se convenceu, e quando os dois ca'elestibus voltaram a insistir, ameaçou expulsá-los à força. Venafelyn achou essa ideia o maior dos absurdos. O uso da força nunca era uma opção naqueles tempos. Mas Voransir realmente enviou seus seguidores para cima dos dois.

Argavalyn tentou fugir voando. Um dos dragões o acompanhou e, segurando-o pelo pé direito, fez gesto para atear fogo nele. Vendo o fogo se formar, Argavalyn foi tomado por um desespero tão grande que matou seu agressor liberando todo seu poder. Os outros perseguidos recuaram.

Venafelyn ficou horrorizado. Argavalyn deixou-se cair ao lado da carcaça e a fitou longamente. Voransir observou a cena com expectativa e ordenou a seus seguidores que não investissem novamente contra os mensageiros ca'elestibus. Em vez disso, decidiu permitir a fuga de ambos.

Venafelyn e Argavalyn voaram até os outros ca'elestibus, mas as palavras secaram em suas bocas e não conseguiram falar sobre o ocorrido naquele dia, disseram apenas que a seita de Voransir não aceitaria negociar. No entanto, aquela cena não abandonava os pensamentos de Venafelyn.

Argavalyn se tornou ainda mais distante e pensativo, e parecia evitar a presença de Venafelyn.

Quando a notícia se espalhou, tudo o que foi ouvido era que ca'elestibus haviam "assassinado" dois draynos a mando de Lynfrain e elestran.

A notícia foi recebida com choque e incredulidade por todos.

Embora muitos conhecessem a possibilidade da morte, poucos estavam dispostos a aceitar que alguém houvesse feito isso a outro. E ainda havia quem nem sequer a reconhecesse como uma possibilidade.

Somente quando Drongodur, a mando de Voransir, desfilou os cadáveres destroçados é que a notícia foi acreditada.

Por um ano inteiro, draynos revoltados uniram seus clamores à marcha fúnebre dos cadáveres que passava por todos os domínios draynos. Voransir, grande falador como era, clamou justiça pelos mortos e palavras sobre união entre os draynos e sobre a desonra que os ca'elestibus trouxeram para a Existência ao provocarem a fúria do Criador assassinando inocentes.

Amargurado, Venafelyn passou a escutar, calado, verdades e mentiras unidas no discurso do drayno. Um dia, tomado por um forte sentimento de obrigação, decidiu procurar Argavalyn e levá-lo junto para explicar os fatos a todos.

Depois de muita procura, encontrou Argavalyn assentado sobre uma montanha, isolado e sombrio. Ainda pior do que da última vez.

Quando perguntou o que ele estava fazendo ali, Venafelyn recebeu a resposta de um ser tomado pelo terror e à beira do colapso. Argavalyn tinha medo de que, quando todos soubessem a verdade, fosse entregue para Voransir e Drongodur, que certamente fariam com ele o mesmo que foi feito com o drayno. Argavalyn tinha medo de morrer e por isso estava se escondendo ali. Ao ver Venafelyn, decidido daquele jeito, tremeu. Mas disse que, se fosse desejo de Venafelyn que houvesse dois mortos e não um, ele não resistiria e seria levado aos draynos.

Venafelyn se viu diante de um de seus primeiros dilemas.

Era correto entregar Argavalyn pelo que ele havia feito. Mas, durante o tempo que passara com Sutangi, ele conheceu Voransir: um dragão manipulador, genioso e cheio de rancor. Drongodur era apenas uma versão mais agressiva e menos astuta de Voransir. Como eles dominavam o fogo, certa vez Sutangi lhes pedira para ensinarem a Venafelyn alguns aspectos dessa natureza. Não havia sido uma experiência agradável.

Nas mãos desses dois não havia escapatória para o pensativo Argavalyn. Venafelyn não desejava outra morte. Prometeu não contar a ninguém a verdade até que Argavalyn o fizesse.

Argavalyn se curvou sobre os joelhos e dobrou suas asas, jurando para todo o sempre sua profunda e completa gratidão a Venafelyn. "Eu juro minha eterna gratidão", disse ele. "Mesmo que tudo se acabe. Mesmo que os céus desabem sobre a terra. Eu juro. Eu juro. Você sempre terá minha gratidão, minha amizade e lealdade. Ainda que você possa, de agora em diante, rejeitar a companhia de um assassino imundo e covarde como eu, juro que jamais me esquecerei de ti. Juro pelo Criador, pela criação, e por tudo que é santo e sagrado."

As juras não afetaram Venafelyn em nada, e por um longo tempo nem sequer pensou nelas, porém o alívio na face de Argavalyn o tocou.

Venafelyn se sentiu amargurado ao pensar que cogitara entregá-lo à morte.

Aquelas juras, no entanto, pareceram surtir um efeito no próprio Argavalyn, que passou a agir como se tivesse se livrado de todo o peso da culpa. Ele não voltou a se esconder e era visto caminhando entre outros ca'elestibus. Quem o visse jamais pensaria que estava diante do responsável pelo crime que causava tanto alvoroço. Porém, não foram raras as vezes em que Venafelyn o pegava, sozinho, observando os céus sombriamente.

Mas, ainda que Venafelyn não o tivesse acusado e ele houvesse jurado sua amizade, de pouco em pouco, os dois foram se afastando, até que parecesse que nem mesmo Argavalyn se lembrava de suas juras.

A seita de Voransir e Drongodur, que antes desejava apenas uma ou outra coisa, começou a crescer sem parar, mudando de objetivos de acordo com o número de adeptos. Drongodur, que desfilava o cadáver como se fosse seu estandarte, visitou dezenas de líderes draynos, e Voransir, eloquente como era, os informou de seus ideais inovadores. Como naquela época draynos e ca'elestibus já não se davam bem, não foi difícil para eles juntarem ainda mais adeptos.

Algumas alianças draynicas, como os Soberanos de Hurlna sob o comando de Grimihall, o Gélido, recusaram qualquer tipo de ligação com essas reivindicações. Mas muitos outros se juntaram. Principalmente entre os draynos do fogo, os chamados dragões, quase todos seguiam o exemplo de Voransir e Drongodur.

Foi nessa época que Sutangi, que era tido como o primeiro dragão, começou a guiar seu próprio movimento, se opondo a Voransir, e tentando convencer draynos e ca'elestibus de que os dois tinham mais a ganhar juntando suas capacidades do que tentando progredir cada um por si mesmo. Sutangi era famoso e querido tanto entre draynos quanto entre ca'elestibus, e logo muitos se juntaram a ele. O próprio Elestran se juntou a esse movimento e se tornou um símbolo quase tão marcante quanto os cadáveres arrastados por Drongodur. Venafelyn também se juntou, e novamente se encontrou com Sutangi.

O movimento de Sutangi cresceu até se tornar quase tão grande quanto o de Voransir.

A desgraça veio quando membros da seita de Voransir começaram a ser misteriosamente mortos. Tudo começou com um drayno que, sem um motivo aparente, sumiu por um longo tempo. Seu corpo foi encontrado pela seita de Voransir, todo quebrado e deformado.

O pânico tomou conta de todos. O clima de desconfiança aumentou ainda mais quando descobriram que era mais um dragão morto pelo poder de um ca'elestibu. Os draynos voltaram a se alvoroçar. Entre os seguidores de Sutangi, muitos o abandonaram.

Outros corpos voltaram a aparecer. Foram prontamente erguidos por Drongodur e mostrados como a bandeira de sua causa. Quando as suspeitas recaíram sobre o grupo de Sutangi, não demorou para que a maioria dos draynos que o apoiavam o abandonassem. E os ca'elestibus, injuriados com as ofensas e acusações, não demoraram a fazer o mesmo.

O movimento de Sutangi se desfez. E Voransir recebeu mais adeptos. Venafelyn percebeu que, a partir desse dia, não apareceu mais nenhum morto.

A dúvida e o receio passaram a ser sentidos em todos os lugares.

Os draynos decidiram de uma vez por todas se afastarem dos ca'elestibus e criarem seus próprios governos.

Voransir claramente se tornou o maior entre eles, sempre com sua visão separatista e egocêntrica. A maioria dos dragões o seguiu; outros draynos, no entanto, formaram seus próprios domínios, longe tanto de Voransir quanto dos ca'elestibus.

Sutangi caiu em desgraça entre seu povo e decidiu se afastar deles. Elestran, Venafelyn e Avalyn ofereceram abrigo para ele entre os ca'elestibus.

Voransir se tornou poderoso entre os draynos, um verdadeiro herói. Mas, para sua infelicidade, seu grupo não se tornou um povo tão poderoso quanto ele planejava. Muito menos unidos.